Preto, Pobre, Padre, Intelectual e Humanista

Nascido nas ribanceiras das circunfluências dos rios Itacaiúnas/Tocantins,

 

Dona Olinda, sua mãe, uma maranhense de Carolina que sonhava ser freira, mas, pela imposição dos pais, casou-se muito jovem e mudou-se para Marabá, tornar-se lavadeira às margens dos caudalosos rios Itacaiúnas/Tocantins para sustentar seu filho recém-nascido.

 

Na enchente nos rios Itacaiúnas/Tocantins em 1957, ele e sua mãe mudam-se para Xambioá,

 

às margens do Rio Araguaia, águas que foram, são e serão fonte poética dos corações embevecidos pelo fogo da paixão,

 

mas também águas que presenciaram dor, tortura e morte na Guerrilha do Araguaia.

 

Aquela criança raquítica pela falta de condições econômicas,

 

Ele, desde cedo, sentiu o abandono do Estado brasileiro e a exploração aos trabalhadores;

 

em 1964, Ele é acolhido pelo bispo Dom Cornélio Chizzini no Seminário Menor Leão XIII;

 

começa sua vida de seminarista na cidade de Tocantinópolis, coincidentemente no ano do Golpe Militar.

 

Em 1969, ingressa no Seminário Maior em Brasília, onde fez o propedêutico;

 

no ano de 1971, inicia o curso de filosofia, em Lorena/SP;

 

em 1975, começa a estudar teologia no Instituto dos Freis Franciscanos, em Petrópolis/RJ;

 

torna-se aluno dos Freis Leonardo Boff e Clodovis Boff e aprofunda os fundamentos da Teologia da Libertação;

 

Ele conheceu as causas e consequências da Guerrilha do Araguaia que influenciaram na sua formação.

 

Também percebeu a exploração e a violência contra os trabalhadores rurais do Bico do Papagaio;

 

ainda como seminarista, fez sua escolha religiosa/social fundamentada no evangelho, de opção preferencial pelos pobres;

 

Ele, assim como Jesus, nunca amou a pobreza e sim o pobre.

 

20 de janeiro de 1979, Ele é ordenado padre por Dom Cornélio Chizzini, mãos ungidas pelo Espírito Santo;

 

Em 1979, torna-se vigário-cooperador da Paróquia de Wanderlândia e depois pároco; logo percebe o abandono, a perseguição e violência aos trabalhadores rurais, e passou a incomodar os poderosos da região e parte corrompida do poder jurídico e militar.

 

Em 1983, Ele é transferido para a Paróquia de São Sebastião do Tocantins; encontra uma realidade de pobreza e abandono do Estado e violência sistêmica no campo; aquele jovem padre percebe a necessidade de conscientização dos trabalhadores rurais para juntos enfrentarem as forças corruptas do Estado e dos gananciosos fazendeiros.

 

Ele, com outras lideranças, passa a organizar os trabalhadores rurais em defesa da reforma agrária;

 

Em 1984, com outros líderes locais, nacionais e os trabalhadores rurais, se reúnem em Augustinópolis para lutarem contra a violência aos trabalhadores rurais e a implementação da reforma agrária;

 

EU, com 11 anos de idade presenciei essa reunião na Praça Ary Valadão.

 

As ameaças contra Ele se intensificam, é preso e sofre atentados;

 

entretanto, não desiste de sua luta pela igualdade religiosa/social;

 

o círculo se fecha, o judiciário e forças militares se omitem;

 

parte dessas forças, além da omissão, compactuam com assassinatos de trabalhadores rurais.

 

27 de abril de 1986, Assembleia Diocesana em Tocantinópolis, Ele coordena a reunião;

 

no término da Assembleia, os líderes das pastorais católicas tentam convencê-lo a sair da região;

 

Ele recusa e faz o histórico discurso que ficou conhecido como seu Testamento Espiritual, em apoio aos trabalhadores, fundamentado no evangelho.

 

“Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma justa causa. […] A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados, despejados de suas terras. Deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar.”

 

Alguns dias depois, Ele é convencido pelo Bispo Dom Aloísio a fazer uma especialização em Roma;

 

porém, o telefone do Bispo estava grampeado, assim descobriram sua ida a Roma;

 

em 10 de maio de 1986, Ele saiu de São Sebastião do Tocantins para levar os documentos à CPT;

 

Geraldo Rodrigues — em um Corcel — o seguiu, atravessaram juntos na Balsa no Rio Tocantins,

 

após a travessia, ele o continuou seguindo pela Rua Luís Domingues, em Imperatriz.

 

Ele sobe pela escadaria do Centro Pastoral e Sede da CPT ao lado da Catedral de Nossa Senhora de Fátima;

 

Geraldo o atinge com disparos, Ele cai, é socorrido e levado ainda vivo para o Hospital São Rafael;

 

entretanto, por motivos estranhos… leva uma hora para ser atendido, vindo a falecer;

 

coincidentemente, o diretor do hospital era também presidente da UDR (União Democrática Ruralista) de Imperatriz.

 

Dia 10 de maio de 1986, parte do Estado — por meios do poder judiciário, militar, fazendeiros — silencia a voz física d’Ele;

 

mas fortalecem a luta, o sonho da luta contra a violência, desigualdade social na região; mataram um homem, preto, pobre e padre — mas não a sua luta.

 

Padre Josimo Morais Tavares, assim como Jesus, tombou por uma causa justa; desse então, 40 anos se passaram do seu martírio; mas seus ideais continuam vivos no meio popular; não celebramos sua morte e sim a vida plena.

 

Valdo Rosário, professor e escritor

Augustinópolis, 12 de maio de 2026

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