Lula celebra Consciência Negra: “Existe uma bela África no coração do Brasil”

Nesta sexta-feira (20), ex-presidente Lula lembrou das bandeiras históricas da população negra contra o racismo e a desigualdade e celebrou a luta libertadora de Zumbi dos Palmares. “Esse dia recorda que o Brasil foi construído também por mãos negras e escravizadas e pelo talento de muitos filhos de escravos”, lembrou Lula, em mensagem pelas redes sociais. “Este é um dia que todos os brasileiros têm de celebrar, independentemente de raça e cor. Porque esse é um dia que define nosso país, o que somos e o que podemos ser”

Lula: “com racismo, não há sequer soberania” / Foto: Ricardo Stuckert

Nesta sexta-feira (20), Dia da Consciência Negra, o ex-presidente Lula lembra das bandeiras históricas da população negra contra o racismo e a desigualdade e celebra a luta libertadora de Zumbi dos Palmares. Em mensagem gravada e distribuída pelas redes sociais, Lula afirmou que o histórico processo de discriminação, presente desde o fim da escravidão está na “raiz das desigualdades sociais e raciais do Brasil de hoje”.

“Este é um dia que todos os brasileiros têm de celebrar, independentemente de raça e cor. Porque esse é um dia que define nosso país, o que somos e o que podemos ser”, disse o ex-presidente. Lula lembrou de uma viagem que fez em 2005 à Ilha de Gorée, na Costa do Senegal, local onde escravos eram enviados contra a vontade para as Américas, “para nunca mais voltar” e perdendo, “definitivamente, sua terra, sua família e sua liberdade”.

O presidente relatou, que durante a viagem, foi tomado pela emoção e pediu desculpas ao povo africano. Ele lembrou que nada menos do que 12,5 milhões de africanos foram escravizados e enviados para as Américas e o Caribe durante mais de três séculos. Milhares deles jamais testemunharam o desembarque, morrendo no caminho, vítimas de condições subumanas dentro dos navios.  Só no Brasil, quase cinco milhões de escravos passaram pelos portos brasileiros.

Segundo o ex-presidente, a escravidão começou assim, pelo processo que forçou africanos escravizados ao esquecimento forçado de suas origens e “da condição humana”. “O racismo se mantém, em grande parte, pelo esquecimento do processo que nos formou como país”, afirmou Lula. Daí a importância do dia 20 de novembro, aponta o líder petista.

“Instituído na data da morte de Zumbi, herói da luta contra a opressão dos colonizadores em Palmares, este dia lembra o que não pode ser esquecido”, adverte Lula. Além da escravidão, a data também marca “o exemplo da luta gloriosa do povo negro por sua libertação”, no “amanhecer corajoso de Zumbi e Dandara em Palmares”.

Construção da identidade nacional

“Esse dia recorda que o Brasil foi construído também por mãos negras e escravizadas e pelo talento de muitos filhos de escravos”, disse Lula, citando personagens fundamentais na construção da identidade nacional: Machado de Assis, Lima Barreto, Maria Firmina, Luís Gama, José do Patrocínio, João Cândido, Carolina de Jesus,  Abdias do Nascimento, Conceição Evaristo, Gilberto Gil, Benedita da Silva, Martinho da Vila.

“O país de intelectuais negros e negras que ajudaram na formação da inteligência nacional e na compreensão da sociedade brasileira”, destacou, lembrando do papel de Milton Santos, Joaquim Nabuco, Lélia González,  Manoel Querino, André  Rebouças, Guerreiro Ramos, Beatriz Nascimento, Joel Rufino e Clóvis Moura. “A negritude está em todos nós, independentemente da cor da nossa pele. Somos filhos da África, existe uma grande e bela África no coração do Brasil”, declarou Lula.

Séculos de escravidão brutal e negacionismo

Ele lembrou que o país paga o preço por ter sido o último a acabar com o tráfico de escravos e o último a abolir a escravidão. “Vivemos quase quatro séculos de escravismo brutal”, lamentou. “Isso deixou marcas profundas na nossa sociedade”. Para Lula, são marcas estruturais, “que alguns querem negar e esquecer”, disse, citando o governo genocida de Bolsonaro, “totalmente empenhado em negar o papel da escravidão na formação do Brasil”.

“Temos um presidente que afirma que os quilombolas têm de ser pesados em arrobas, como gado, e que esses descendentes dos combatentes contra a escravidão  não servem nem para procriar”, constatou Lula, condenando quem afirma não existe racismo no Brasil, como voltou a demonstrar o governo, na da infeliz declaração do vice-presidente, Hamilton Mourão, nesta sexta-feira (20).

Abismo social

Apesar de ter mais de 50% da população negra, o governo de homens brancos de Bolsonaro segue ignorando sua existência e aprofundando o abismo social que isola a população negra do exercício da cidadania. “No Brasil, a desigualdade e a pobreza têm cor”, aponta Lula. “Quase um terço dos negros brasileiros está abaixo da linha da pobreza”, disse Lula, citando dados do IBGE. Entre brancos, o índice é de 15%. A pobreza extrema atinge 9% dos negros e menos de 4% de brancos.

Lula lembrou ainda que as mulheres são as mais penalizadas no processo de exclusão social entre a população negra. “Mesmo com curso superior, elas ganham metade do que ganham homens brancos para exercerem a mesma função”, destacou. Além disso, lembrou, os negros são os maiores atingidos pela violência, principalmente os jovens, “vítimas de um genocídio”.

Estatuto da Igualdade Racial

Lula lembrou de conquistas fundamentais para a correção de injustiças históricas que foram marcas do seu governo e de Dilma Rousseff, como a criação do Estatuto da Igualdade Racial, o reconhecimento das terras dos quilombolas, e as cotas para o ensino superior e o funcionalismo público. “Hoje tenho certeza de que é necessário fazer muito mais”, aponta Lula.

“Se quisermos ter um futuro de justiça e democracia, precisamos combater e superar o racismo”, argumentou. “Não basta não ser racista, precisamos urgentemente ser antirracistas”. Com racismo, conclui o presidente, “não há sequer soberania”.

Repúdio ao assassinato de João Freitas

A mensagem de Lula foi encerrada com o repúdio e o lamento de Lula pelo assassinato de João Alberto Freitas ocorrido na noite de quinta-feira (19), em Porto Alegre, por um segurança do Carrefour e um policial. “Amanhecemos transtornados com as cenas brutais de agressão contra João Alberto Freitas, um homem negro, espancado até a morte no Carrefour. O racismo é a origem de todos os abismos desse país. É urgente interrompermos esse ciclo”, conclamou o ex-presidente.

Da Redação PT Nacional

PT repudia assassinato de trabalhador negro em Porto Alegre, vítima de seguranças do Carrefour

Líderes políticos da luta anti-racista no Brasil, como Paulo Paim e Benedita da Silva, lamentam a morte violenta de homem negro, espancado até a morte na porta do supermercado. “O racismo é a origem de todos os abismos desse país”, alerta Lula. “Dia da Consciência Negra é, assim, dia de luto e de luta”, adverte Dilma. Gleisi lembra que, nesta semana, a vereadora petista Ana Lúcia Martins, eleita em Joinville, foi vítima do racismo pela cor da pele e ameaçada de morte

Site do PT/@CRISVECTOR

O Brasil amanheceu em choque, nesta sexta-feira, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, com a notícia do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um trabalhador negro espancado até a morte na entrada de um supermercado do Carrefour, em Porto Alegre, por seguranças. Diante do silêncio cúmplice do Palácio do Planalto, líderes petistas manifestaram repúdio ao bárbaro crime, que começou a ganhar repercussão internacional, e alertaram que o país está mergulhado numa crise social sem precedentes. Petistas históricos, como o senador Paulo Paim (PT-RS) e Benedita da Silva (PT-RJ), mostraram-se estarrecidos e envergonhados pelo exemplo de violência racial.

“Repudio veementemente mais um ato covarde e criminoso contra pessoa negra”, disse Paim, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal. “Assisti com tristeza e indignação mais uma vez atos de intolerância e de discriminação racial ocorridos contra um homem negro, na capital do meu Estado, Porto Alegre”, lamentou o senador. “Vidas negras importam. Todas as vidas importam”, destacou.

Cenas da barbárie no Brasil. Seguranças do Carrefour imobilizaram e espancaram até a morte o trabalhador negro João Alberto Silveira Freitas, 40 anos. Episódio ocorreu na noite de quinta-feira em Porto Alegre / Reprodução

“Nós não temos um dia de paz e tranquilidade”, criticou Benedita da Silva, ainda ontem à noite, quando soube do crime. “Os nossos corpos são alvos de violência a todo momento. Que não apenas no dia 20 de novembro seja lembrado que vidas negras importam, mas sempre”, ressaltou. Ela também lamentou o assassinato da candidata do PT à Prefeitura de Curralinho (PA), a ativista e militante política Leila Arruda, assassinada pelo ex-marido.

“Todos os dias, o racismo e o machismo assassinam centenas de João e centenas de Leila em nosso país”, disse Benedita, “Esses dois brutais assassinatos são retrato de um Brasil governado à luz do fascismo. Não podemos mais conviver com estas realidades. Precisamos ir à luta!”, desabafou a deputada federal. Ela ressaltou a realização do ato de repúdio ao atual presidente da Fundação Palmares, Sergio Camargo Nascimento. “Por razões ideológicas, ele ataca heróis negros do povo brasileiro e até o Dia da Consciência Negra – Dia de Zumbi dos Palmares. Ele nunca nos representará”, declarou.   

Lula e Dilma também rechaçam episódio

“O racismo é a origem de todos os abismos desse país. É urgente interrompermos esse ciclo”, alertou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ex-presidenta Dilma Rousseff declarou que o crime é revoltante e mostra a persistência da violência escravocrata no Brasil. “A história de nosso país está manchada por 350 anos de escravidão e mais 170 anos de violência racista, exclusão da cidadania e profunda desigualdade impostas à majoritária população de negras e negros”, advertiu. “O Dia da Consciência Negra é, assim, dia de luto e de luta”.

Dilma declarou que só haverá paz e democracia plena no Brasil quando o racismo estrutural for enfrentado, punido e destruído. “A sociedade precisa aprender que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista e lutar contra todas as formas de discriminação”, ressaltou. A presidenta nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann também repudiou o crime e denunciou que o país precisa combater a discriminação racial. “Combater o racismo é condição para construir uma sociedade justa e igualitária. Vidas negras importam sim. Não pode ser só discurso. Quantas vidas mais serão perdidas?”, questionou.

É chocante que no Dia da Consciência Negra, quando lamentamos a morte brutal de João Alberto Freitas no Carrefour por racismo, o chefe da Nação ignora o fato e ainda debocha da comunidade negra”, escreveu Gleisi, em sua conta no Twitter. “Até hoje me pergunto o que esse homem tá fazendo na Presidência da República?”.

O assassinato de Freitas em Porto Alegre não é caso isolado de racismo estrutural no país. No começo da semana, a vereadora petista Ana Lúcia Martins, a primeira negra eleita no município de Joinville, em Santa Catarina, sofreu ameaças de morte e ataques racistas desde a proclamação de sua vitória nas urnas, confirmada no último domingo, 15 de novembro. O episódio ocorreu diante da constatação do crescimento de mandatos de mulheres, jovens, negros e negras e LGBTs em todo o país. O PT pediu a abertura de uma investigação pela polícia de Santa Catarina para apurar o caso e punir os agressores.

Repercussão internacional: Reportagem da Associated Press, distribuída em todo o mundo destaca o assassinato de João Alberto Silveira Freitas em Porto Alegre. / Reprodução

Repercussão internacional

Nas agências internacionais de notícias, o assassinato de João Alberto Silveira Freitas repercutiu no início da tarde. A Associated Press destacou – com reprodução imediata em jornais influentes como o Washington Post – o brutal assassinato. “Morte na véspera do Dia da Consciência Negra no Brasil desperta fúria”, destaca a AP, no título da reportagem, lembrando ainda que o episódio não é isolado e que o supermercado Carrefour já havia protagonizado outras cenas polêmicas.

Na Reuters, o destaque dado pela agência é que o homem negro foi “espancado até a morte por seguranças da loja do Carrefour”, no Brasil. Diz a agência: “Os brasileiros gostam de pensar em seu país como uma democracia racial e o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro nega a presença de racismo. Mas a influência da escravidão abolida em 1899 ainda é evidente”.

Da Redação PT Nacional, com agências de notícias