Anvisa volta atrás e autoriza retomada de testes da vacina. Desmoralizado, Bolsonaro fica chupando dedo

Menos de 48 horas depois de suspender exames clínicos com a Coronavac, agência de vigilância sanitária brasileira diz que medicamento pode ser retomado e recua na decisão, vista como posição política para agradar o líder da extrema-direita. Presidente se desmoraliza perante o Brasil e o mundo, depois que o STF cobrou explicações do governo. O líder Rogério Carvalho volta a criticar o inquilino do Planalto: “Mais uma vez o desrespeito dele à vida fica para a história com a morte de quase 163 mil brasileiros”

Agência PT

O mundo assiste estupefato as idas e vindas do governo brasileiro em meio à crise sanitária do coronavírus. Menos de 48 depois de ter decidido suspender os testes da Coronavac, a vacina contra o Covid-19 desenvolvida empresa indústria farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltou atrás e autorizou nesta quarta-feira, 11 de novembro, a retomada dos testes clínicos em larga escala do medicamento.

O presidente Jair Bolsonaro questionou repetidamente a eficácia prospectiva do Coronavac, e em outubro, rejeitou a possibilidade de o governo federal comprar o medicamento. Ele desautorizou o ministro da Saúde, General Eduardo Pazuello, dizendo que os brasileiros não seriam usados como cobaias. Ontem, o presidente comemorou a suspensão da Anvisa, dizendo que isso era uma vitória para ele e apontando em redes sociais: “ Jair Bolsonaro vence novamente”.

A decisão inicial da Anvisa gerou uma enxurrada de denúncias de que a ação era mais política do que científica. O fato de Bolsonaro ter comemorado a decisão da Anvisa, apontando que a decisão era um golpe na vacina chinesa, ganhou repercussão internacional e críticas da oposição. A agência citou um “evento adverso sério” que ocorreu em 29 de outubro como motivo para interromper os testes, mas hoje destacou ter “elementos suficientes para permitir que a vacinação seja retomada”.

A decisão da agência foi adotada menos de 24 horas depois do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, cobrar explicações do governo, atendendo a pedido apresentado pelo Partido dos Trabalhadores e outras legendas da oposição – PSB, PCdoB, Cidadania e PSOL. O relator da arguição de descumprimento de preceito fundamental apresentada pela oposição deu 48 horas para a Anvisa se explicar. Parlamentares do PT criticaram o governo, que parece pouco se importar com o desenrolar da crise sanitária. O Brasil tem mais de 162 mil mortos e 5,6 milhões de pessoas contaminadas, desde o início da pandemia do Covid-19.

Críticas do PT

O líder do PT no Senado, Rogério Carvalho (SE), subiu o tom nas críticas a Bolsonaro, exigindo explicações. “Não podemos aceitar politizar uma questão crucial para saúde pública nacional”, reagiu o parlamentar. “Mais uma vez o desrespeito dele à vida fica para a história com a morte de quase 163 mil brasileiros”.

A presidenta nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), e outros líderes da legenda apontam que a suspensão dos testes determinada pela Anvisa foi motivada pela desconfiança de Bolsonaro. Ele é um crítico ferrenho da China e promove uma política de alinhamento automático ao governo de Donald Trump. A Anvisa havia tentado apontar que a decisão havia sido baseada em questões técnicas e reclamado informações iniciais suficientes sobre o caso.

O Instituto Butantan anunciou que desde o final de outubro a agência havia sido informado de que um paciente que testava a vacina havia sido encontrado morto. O Instituto Médico Legal de São Paulo disse que há evidências de que o paciente que usava a Coronavac teria se suicidado, mas esclarecendo que o episódio não tem qualquer relação com o uso do medicamento.

Nesta quarta-feira, ao anunciar o recuo e autorizar a retomada dos testes, a agência se justificou dizendo que “continua monitorando a investigação do desfecho do caso para definir a possível relação causal entre o evento inesperado e a vacina”. Mas não especificou que tipo de evento ocorreu. Cerca de 10 mil voluntários estão participando da fase três de testes da candidata Sinovac, uma das várias vacinas potenciais em teste. O Brasil é a segunda nação com maior número de mortes pelo Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos.

As interrupções temporárias de testes de drogas e vacinas são relativamente comuns; em pesquisas envolvendo milhares de participantes, alguns provavelmente ficarão doentes. Pausar um estudo permite que os pesquisadores investiguem se uma doença é um efeito colateral ou uma coincidência. No mês passado, duas farmacêuticas retomaram os testes de suas possíveis vacinas contra o coronavírus nos Estados Unidos depois que foram suspensas anteriormente.

Da Redação PT Nacional

Mídia estrangeira destaca a reação destemperada de Bolsonaro à vacina chinesa

Jornais influentes como o inglês ‘The Guardian’ e o americano ‘New York Times’ ressaltam a declaração de ‘vitória’ de Bolsonaro diante da suspensão dos testes da Coronavac. Críticos apontam que o líder da extrema-direita está tentando tirar proveito político da situação e especialistas estranham a falta de explicações técnicas para a decisão da Anvisa. País já tem 162 mil mortos pelo novo coronavírus

Agência PT

O presidente Jair Bolsonaro volta a mostrar sua verdadeira face diante da comunidade internacional na condução da pandemia do novo coronavírus no Brasil, expondo a imagem do país de maneira vexatória e irresponsável. Desde o início da manhã desta terça-feira, 10 de novembro, jornais influentes nos Estados Unidos e na Europa, além das principais agências internacionais de notícias, divulgaram a reação do líder da extrema-direita comemorando a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de suspender os testes da Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em conjunto com o Instituto Butantan, contra o Covid-19. O Brasil tem 162,6 mil mortes pelo novo coronavírus e mais de 5,6 milhões de casos de pessoas infectadas.

Associated Press destacou em reportagem que a decisão da Anvisa parece “ter sido motivada não pela ciência, mas pela hostilidade política do líder ao país e ao estado [de São Paulo] envolvido na produção da vacina candidata”. O Coronavac está sendo testado em sete estados brasileiros, além do Distrito Federal. O despacho da AP ressalta que a decisão da Anvisa é “outro golpe de Bolsonaro” contra a vacina. O britânico Financial Times reporta que o Brasil enfrenta reação política após a suspensão do teste da vacina Covid desenvolvida na China. E que Pequim está empenhada em usar o setor farmacêutico para divulgação diplomática pós-pandemia

A agência Reuters destacou no título do material distribuído em todo o planeta que Bolsonaro comemorou “a suspensão do teste da vacina Sinovac como uma ‘vitória’”. A Anvisa anunciou que manterá a suspensão e não deu qualquer indicação de quanto tempo pode durar. Os organizadores dos testes criticaram a decisão da Anvisa, dizendo que não haviam sido notificados com antecedência e que não havia motivos para interromper o julgamento. Embora um voluntário do ensaio tenha morrido, isso não teve nada a ver com a vacina, disse Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde do estado de São Paulo.

O jornal americano New York Times questionou a decisão do país: “Brasil interrompe teste de vacina chinesa. Mas a culpa foi da ciência ou da política?”. O diário estadunidense – um dos mais influentes do mundo – informa que “o governo brasileiro ofereceu poucas explicações sobre o motivo pelo qual parou abruptamente os testes de uma promissora injeção de coronavírus que milhares de pessoas já receberam”. O jornal traz Tao Lina, especialista em vacinas em Xangai, apontando que a suspensão brasileira não foi baseada na ciência, mas na política.

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De acordo com a reportagem assinada pelo chefe da sucursal do NYTimes no Brasil, Ernesto Londoño, em outubro Bolsonaro já havia reagido com “raiva” ao saber que o Ministério da Saúde pretendia comprar 46 milhões de doses da vacina. “Eu ordenei que fosse cancelado”, disse ele. “Parece que nenhum país do mundo está interessado nessa vacina chinesa”. O jornal lembra que especialistas em vacinas consideram os dados dos testes iniciais do Sinovac promissores. “Os resultados dos testes de Fase 1 da empresa não mostraram efeitos adversos, e os testes de Fase 2 mostraram 90% de proteção contra o SARS-CoV-2, o vírus que causa o Covid-19”, destaca o jornal.

O inglês The Guardian destaca que Bolsonaro provocou indignação ao se gabar da suspensão dos ensaios clínicos da vacina chinesa contra o coronavírus após a morte de um voluntário. “Outra vitória de Jair Bolsonaro”, escreveu em comentário postado pela conta oficial do líder de extrema direita do Brasil na noite de segunda-feira no Facebook. Ele fez o comentário depois que a agência reguladora de saúde do país, a Anvisa, anunciou ter interrompido os testes do Coronavac.

A reportagem de Peter Beaumont e Tom Phillips é contundente. “Embora os ensaios de vacinas sejam frequentemente interrompidos para investigar suspeitas de efeitos colaterais, incluindo o ensaio de fase 3 da vacina da Universidade de Oxford University e AstraZeneca, a linguagem usada pelas autoridades brasileiras foi invulgarmente forte, embora não tenham fornecido detalhes adicionais, exceto que o evento adverso ocorreu no final de outubro”, apontam no texto.

Segundo a matéria do Guardian, o comentário de Bolsonaro ocorre na esteira da divulgação de que a vacina alemã BioNTech/ Pfizer demonstrou 90% de eficácia em seus resultados provisórios. “O anúncio brasileiro marcou o mais recente tropeço em um progresso global que está sendo observado com ansiedade em todo o mundo”, aponta o texto. “Os críticos expressaram preocupação sobre o que às vezes parecia uma corrida inconveniente e às vezes antiética para obter vacinas aprovadas para uso”.

Da Redação PT Nacional, com agências internacionais de notícias